• Marina de Almeida Barbosa

O CANTO DA CIGARRA

Atualizado: 24 de Out de 2018

Tendo a cigarra em cantigas Passado todo o verão Achou-se em penúria extrema Na tormentosa estação.

“A formiga e a Cigarra” - La Fontaine | tradução de Bocage


As temperaturas mais quentes da primavera chegam e não tarda começa a cantoria. São as cigarras. É tanta cantoria que acaba incomodando muita gente, além das formigas, é claro.

Cigarra é o nome comum para os insetos da família dos cicadídeos, que possui mais de 1500 espécies distintas. Na região sul de Minas as mais comuns são as espécies Quesada gigas (que começa a cantar em meados de novembro e vive cerca de um mês) e a Fidicina mannifera (que canta de dezembro a janeiro). Outra espécie comum no Brasil é a Carineta fasciculata que pode ser considerada a espécie brasileira. A maioria das cigarras tem um ciclo de vida que dura de dois a cinco anos, no entanto, algumas espécies como as do gênero norte-americano Magicicada, tem uma vida mais longa, e vivem 17 anos.


Só os machos das cigarras cantam, e eles produzem esse som porque possuem uma cavidade “acústica”, onde uma membrana vertical vibra com o movimento do abdômen. O som produzido pelas cigarras na natureza é o mais alto dentre todos os insetos e esse som pode ser ouvido a até 500 metros de distância. Cada espécie possui um tipo de canto característico, algumas possuem um canto tão agudo que se torna inaudível ao ouvido humano, outras conseguem atingir os 120 decibéis (mais alto, por exemplo, do que o som emitido por uma viatura da polícia). É tão alto que as próprias cigarras têm um mecanismo para proteger seus ouvidos do som que emitem; elas possuem um par de grandes membranas que se dobram quando o macho canta, desta maneira o som alto não lhes provoca danos.


As cigarras passam a maior parte da vida embaixo da terra. As ninfas que saem dos ovo caem no solo, entram na terra e vão cavando até encontrar as raízes das árvores, onde se fixam para sugar a seiva, e assim passam a maior parte da sua vida. Após esse tempo elas amadurecem, constroem um túnel para a superfície e emergem.

Elas vão subindo na árvore e nesse processo ocorre a ecdise, troca do exoesqueleto, e assim assumem a forma de adulto que pode se reproduzir. A história de que as “cascas” de cigarras encontradas nas ruas são cigarras que cantaram até estourar é um mito, essas “cascas” são o exoesqueleto deixado pelas cigarras, só depois desse processo que as cigarras cantam.


Já na forma adulta, as cigarras sobem nas árvores até alcançar caule e folhas e dali sugam a seiva para se alimentar. Na reprodução os machos emitem seu canto para atrair as fêmeas. O pouco tempo de vida das cigarras adultas e o fato de que são presa fácil para alguns predadores faz com que elas tenham que agir depressa, cantando o mais alto possível durante o máximo de tempo possível. Em seu desespero, algumas cigarras machos podem até copular com outros machos ou com cadáveres de fêmeas. Depois da cópula e da postura as cigarras morrem. Dos 400 a 600 ovos que foram colocados nos ramos mais finos das planta, emergem as ninfas, que chegam no solo e recomeçam o ciclo.

Não é fácil ser uma cigarra. Na fábula elas são descritas como insetos preguiçosos, na agricultura são pragas perigosas e nas cidades fazem as pessoas perderem a cabeça com seu canto.


No entanto é importante ressaltar que elas só cantam devido ao chamado da sua natureza. Elas são importantes no equilíbrio do bioma e também são bioindicadores de desequilíbrio nas matas ciliares. Se existem muitas cigarras cantando é porque não existem predadores suficientes para limitarem sua população. O habitat desses insetos está sendo espremido pelo desenvolvimento das cidades e o seu ciclo de vida está mudando devido ao aquecimento global, fenômeno pelo qual temos nossa grande parcela de culpa. As temperaturas mais quentes chegaram mais cedo esse ano e as cigarras sentiram isso. A espécie Quesada gigas, que deveria começar sua cantoria só em meados de novembro, neste ano cantava desde setembro.


O que seria da vida dos pássaros que tanto queremos preservar se não fossem essas criaturinhas barulhentas? As cigarras são pragas para algumas espécies de plantas e seu canto pode ser incômodo para algumas pessoas, mas elas exercem um papel na natureza que só pode ser cumprido por elas. O que não estava escrito na fábula é que elas têm motivo pra cantar; e pro equilíbrio do meio ambiente essa cantoria faz toda diferença.

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